É natural a monogamia nos seres humanos?

Os seres humanos gostamos do natural, ou pelo menos, a publicidade insiste nisso: “Limpador X, com o aroma natural de limão”, e assim por diante. Existe uma noção do “natural” que é realmente bastante artificial, conveniente para os gostos e padrões indicados pela sociedade comercial dominante.

É curioso que essa noção do natural também apareça (juntamente com a noção do normal) quando se fala de relações sexoafetivas, mesmo no ambiente monogâmico. Ja é demais no mundo LGBTI ou no campo de fetiches, BDSM, etc.

Em todos esses cenários, é muito comum ouvir que existem coisas que “não são naturais” ou “não são normais”, mas a verdade é que a maioria das pessoas está tão adoutrinada e acostumada com o ambiente urbano que nem sequer sabe o que é realmente o natural.

O natural e o seu complementar: a cultura

Essa noção do “natural” mencionada acima tem sido muito eficiente na tarefa de substituir o verdadeiro significado dessa palavra. Isso apesar do fato de ser muito óbvio: o natural é o que ocorre na natureza, sem a necessidade de intervenção humana. Uma planta, o mar, uma montanha, um pássaro … são naturais. Por outro lado, um chapéu, embora feito de couro 100% natural, é um produto humano; na natureza não há chapéus.

Os seres humanos temos, em contraste com o natural, um universo cheio de criações próprias: edifícios, roupas, sistemas de transporte, etc. Esse conjunto de criações é conhecido como paisagem cultural, sob a idéia geral de que a cultura é tudo o que os humanos produzimos, seja tangível ou não. É dizer, aos efeitos do caso, aquela conhecida marca de cerveja é cultura tanto como as obras de Beethoven ou um outro objeto qualquer que tinha sido concebido ou fabricado por um humano.

Assim, os seres humanos somos a mistura desses dois universos: biologicamente somos parte da natureza: somos feitos de carne, ossos, hormônios e nervos; portanto, funcionamos como qualquer outro animal de sangue quente. Nós somos mamíferos. Por outro lado, somos seres culturais, capazes de enormes processos de pensamento e abstração, criadores do universo cultural que nos rodeia.

Então, o que é natural no sexo?

Para a grande maioria dos animais, o sexo é apenas uma forma reprodutiva; ter crias e perpetuar a especie é natural. Ocorre que uma das grandes diferenças entre humanos e outros animais é a nossa maneira de abordar o sexo.

Para os seres humanos, o sexo está relacionado ao amor, status social, códigos de vestuário e comportamento; é uma fonte de prazer e satisfação. Sabe-se que apenas mais duas espécies obtêm, como nós, prazer sexual: golfinhos e bonobos. Como o sexo é instintivo entre os animais, também é desprovido de tabus e as relações homossexuais são frequentes.

Os humanos associamos o sexo a tudo o que ja foi mencionado, através dos processos educacionais correspondentes a cada cultura; porem grande parte do comportamento sexual humano responde simplesmente às forças da natureza: as chamadas hormonais, atração física e necessidade reprodutiva, forças que foram instalados no DNA há milhões de anos, muito mais tempo do que a mais antiga das culturas das quais temos registros.

O natural é o instinto reprodutivo

Até agora, falamos sobre comportamentos e motivações sexuais. Todos os animais tentam garantir a prevalência de seus genes e não a de seus concorrentes. Os machos tentam se reproduzir com o maior número possível de fêmeas e até a natureza desenvolveu métodos não muito sutis para conseguir isso.

Entre muitos mamíferos, o mecanismo que garante a passagem dos melhores genes para a próxima geração é a eliminação de outros candidatos: há competição. Chifres, garras e dentes são postos a serviço da luta (às vezes mortal), que garante ao vencedor o privilégio da relação sexual. Supõe-se que, por esse método, os genes transmitidos, os do macho alfa, sejam os mais fortes ou os mais habilidosos.

Em outros casos, o macho simplesmente remove do corpo feminino o sêmen de outros machos antes ou durante a relação sexual. Alguns pássaros introduzem o bico na fêmea para limpar a área do sêmen alheio.

Entre os seres humanos (e muitos outros animais), existe o mesmo mecanismo, apenas que o instrumento encarregado da limpeza é o mesmo pênis. ¿Surpresso?

É para isso que serve a glande. Quando o pênis está profundamente inserido na vagina, a glande coleta o sêmen alheio e expele-o, aumentando as chances de reproduzir o DNA propio, e não aquele dos seus rivais.

O efeito Coolidge e a lingerie

Poucos mamíferos criam casais que perduram no tempo. Os humanos somos uma das especies que faz isso. A escolha de um casal a longo prazo ou mesmo durante toda a vida é um fenômeno generalizado nas aves, como cisnes, pinguins e várias espécies de pássaros marinhos; mas não entre mamíferos.

Entre os humanos, isso se deve à necessidade de permanecermos juntos por muito tempo para as criancas crescerem. A existencia desses casais também foi a base para o desenvolvimento do apego emocional e até de nossa forma de organização social. Mas a verdade é que, se pudéssemos fazê-lo, copularíamos com muitos parceiros diferentes. É o nosso instinto natural.

Existe um fenômeno, cientificamente comprovado, segundo o qual machos de quase todas as espécies perdem o interesse em acasalar-se depois de um tempo com a mesma parceira. Foram feitas experiências com ratos, hamsters e outros mamíferos.

Um macho é colocado com várias fêmeas no cio. O macho acasalará com todos até esgotar-se e depois não responderá a novos estímulos das fêmeas, entrando em um período refratário. Mas se uma nova fêmea é apresentada, ela tira força e copula com ela. A explicação é que a presença de uma nova parceira libera dopamina e o animal tenta perpetuar sua linhagem acima dos concorrentes, mesmo que eses rivais não existam.

O fenômeno é conhecido como “Efeito Coolidge” devido a uma anedota com o presidente americano Calvin Coolidge e sua esposa. (Não, eles não foram usados como cobaias em um experimento).

O Efeito Coolidge também está presente (embora com menor intensidade) em fêmeas de mamíferos e até em animais hermafroditos, como os caracóis.

Ainda mais, o efeito Coolidge tem suas conseqüências na vida sexual dos seres humanos. É uma das motivações para a infidelidade. Ele também explica o sucesso da lingerie feminina, que permite que a mesma pessoa pareça muito diferente em várias ocasiões, gerando ao parceiro a ilusão de que ele está com outra pessoa, sem cair na infidelidade.

Tudo isso nos leva a uma resposta clara à nossa pergunta inicial: NÃO. Os seres humanos não são naturalmente monogâmicos, mas em nossa evolução desde aquele primate antigo até os seres culturais que somos agora, limitamos nossa sexualidade a fim de preservar um modelo social estável. A monogamia, sem dúvida, é uma escolha cultural. Só que, felizmente, a cultura também evolui conosco.

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